10 day * E@D – Confi(n)ar: “Um (pequeno) desabafo”

Ao longo dos últimos anos, temos dito (e repetido) que o professor é a pessoa, e que a pessoa é o professor. Que é impossível separar as dimensões pessoais e profissionais. Que ensinamos aquilo que somos e que, naquilo que somos, se encontra muito daquilo que ensinamos.

Nóvoa, A. (2009)

Ontem, não publiquei o post que habitualmente tenho feito diariamente…
Ontem, estava exausta psicologicamente…”doía-me a alma”…”coisa” que não faz parte do meu feitio…sou por natureza, uma pessoa otimista!

Na escola, sou a professora. Em casa, situo-me na intermitência entre os papéis de mãe e “cuidadora” (geração “sanduíche”).

Há quatro semanas, em casa, assumo todos os papéis formais. De manhã, quando me levanto, preparo o pequeno almoço para a família, bebo o meu cafezinho sem o “sabor” de outros tempos, leio o meu jornal de eleição à pressa, de forma transversal…porque a minha “escola”  está logo ali…no meu escritório de casa e o trabalho tem de ser bem preparado porque o meu “público” é exigente, não é capaz de esconder as suas emoções: ou gostam ou não gostam…não há meio termo… . Ouço os passos da  minha filha que se encaminha para o seu quarto. A “escola” da minha filha é agora no seu quarto…a pouco metros do meu espaço outrora de usufruição e agora transformado em ambiente laboral. Agora, temos mais tempo para debater as questões da educação…perspetivas de professora e de aluna.

Retomando o “fio” ao desabafo inicial…

Sou professora há trinta e três anos e geralmente é-me possível percecionar com significativa nitidez a forma como os alunos se envolvem, como reagem, como aprendem, o que sentem… como vivem o(s) processo(s) de aprendiza-gem(ns).

Ontem, último dia da segunda semana de E@D, último tempo de sessenta minutos dedicado ao lúdico (brincar on-line)…imprescindível para a manutenção da sanidade mental dos alunos (uma aposta muito positiva da direção do AE de Marrazes)… e como habitualmente faço no ensino presencial, desafiei os meus alunos, num bocadinho de tempo (quinze minutos) para pensarmos na nossa vida…
Em Conselho de Cooperação Educativa (“Assembleia de Turma”) fiz as seguintes questões:
– Na tua opinião, como foram as aulas nestas duas semanas de E@D? O que aprendeste? Aonde tiveste dificuldades?
– Como te sentiste nas aulas? E no “Tempo de Estudo Autónomo”?
-O que gostarias que a Professora preparasse como “desafios” para a próxima semana?
As suas respostas foram taxativas e incidiram especialmente nos dois grupos de questões:
“…Professora gosto muito das tuas aulas, logo pela manhã estás com um grande sorriso e dizes: “Bem-vindos meus queridos alunos. Haja alegria!” Tu preparas muitas atividades engraçadas…porque dizes que a brincar aprendemos melhor…mas queremos ir para a escola…lá é melhor!”
“… tenho saudades de ti, dos colegas, da Escola…quando voltamos à escola?…”
“…houve muitos ruídos e a net foi abaixo…não conseguimos comunicar bem…”
“…prefiro que tu expliques ao pé de mim…fico logo a perceber…não preciso que me expliques “mil vezes” até aprender bem…”
É tão difícil lidar com tantos constrangimentos a nível técnico (esta semana, então, foi loucos…a “net” essa coisa que está quase sempre a falhar…), quanto mais verificar o cansaço e a tristeza espelhada nos olhos dos meus pequeninos de oito anos… a “idade da inocência”,  tempo em que deveriam brincar e ser felizes!
Contudo…lá vem a metáfora do “copo” meio cheio/meio vazio …conseguimos todos (professora, alunos e mães) sobreviver às duas primeiras semanas de E@D…. mas, e muito sinceramente, não sei dizer por quanto mais tempo mais consegui-remos…
Vamos apoiando-nos pelos telefonemas, sms, e-mails…uma mais valia neste “processo”…a “união” intensificou-se entre a “escola” e  a família…estamos todos focados em proporcionar o melhor para as crianças.
Hoje, sábado…deveria ter sido um dia dedicado à planificação da semana de trabalho…não consegui…”perdida” nestas reflexões, a experiência da partilha e da construção do saber mediada pela relação pedagógica, pela palavra “olhos nos olhos”, e pelo sentimento de pertença a uma comunidade (escola & família) que partilha objetivos de aprendizagem, de “vida” e de esperança…em contraposição com um tempo que se afasta da convencional ordem dos processos rotineiros em que vivíamos imersos sem a questionar…e agora…valorizamos o que tínhamos, apesar dos obstáculos!
Termino, este desabafo, subscrevendo a perspetiva de Damásio (2017, p.332)
“devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido”.

 

Referências bibliográficas:

  • Damásio, António (2017). A estranha ordem das coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas. Lisboa: Círculo de Leitores.
  • Nóvoa, António (2009). Imagens de um futuro presente. Lisboa: EDUCA, Instituto de Educação da
  •  Universidade de Lisboa.
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