Três meses e 1/2 depois…As minhas vivências no E@D (parte 1):

” Aqueles que passam por nós, não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”

Antoine de Saint Exupéry.

 

 

 

As minhas vivências no E@D

Terminou o ano letivo mais dramático das últimas décadas, devido à pandemia que se espalhou por todo o mundo. É, portanto, tempo de fazer um balanço, em termos reflexivos, que me ajude a preparar os próximos passos…que se adivinham de grande complexidade mental/psicológica e emocional.

Eu, professora do ensino básico com trinta e dois de serviço ( emergi na profissão num contexto do LBSE  – 1986), definindo-me como “eterna aprendiz” e com pouquíssima experiência no E@D, na criação de tecnologias para as pôr em prática. Nestas circunstâncias tão difíceis e árduas, constatei que a função primordial do ensino remoto de emergência não poderia ser fazer cumprir programas, sobretudo pelos mais jovens, mas manter as crianças funcionais para a aprendizagem e intelectualmente ativas durante os meses em que se sabia que não iriam à escola — um objetivo nobre, meritório e imensamente trabalhoso.

O que fiz neste “tsunami” educativo para reinventar-me?

Muitas horas de investigação, de estudo e de pesquisa na internet. Nas redes sociais , no Facebook, emergiram muitos grupos de professores que em estreita colaboração, independentemente dos níveis de ensino, partilharam e construíram conhecimento de “mãos dadas” e “à distância de um clique”.

Fui uma das professores que aderiu, nos primeiros dias, ao  grupo “E-learning – Apoio”  e com o apoio deste grupo num exercício gigantesco de formação mútua em exercício, aprendi a aperfeiçoar o meu conhecimento em plataformas educativas e a construir recursos digitais para o meu “público”.

Necessitei também de recorrer às ciências da educação, sociologia, filosofia, comunicação, multimédia, computação e inteligência artificial … para compreender este novo paradigma educacional que apresentou-se como um “tsunami”. Foram muitas horas de reinvenção pedagógica e de muito “colo emocional” a alunos e famílias…foram muitas as horas…das quais abdiquei dos meus prazeres familiares e de fruição pessoal.

 

O que constatei?

  • Nada substitui o ensino presencial! Somos humanos necessitamos de comunicar “olhos nos olhos” para aprender a “desbravar” o mundo
  • Houve dificuldades nas vias comunicacionais na comunidade educativa…mas, também, houve “luta” para ultrapassar os muitos constrangimentos tecnológicos, organizacionais e pessoais. O que cada família viveu neste período ficará para sempre confinado na sua história de vida. A “empatia” é uma competência socio emocional que deve ser trabalhada em miúdos e graúdos. É imprescindível “cultivar” a empatia!
  • Houve um agravamento das desigualdades, não apenas por culpa da tecnologia, mas sobretudo porque os contextos familiares são determinantes. Já o são habitualmente, mas mais ainda numa situação de crise e quando se exige um envolvimento acrescido dos pais – sobram “défices de aprendizagem” como herança desta experiência.
  • “Não é a fazer trabalhos de casa  que se aprende!” foi a constatação da família. Eles , os TPC`s, servirão apenas para consolidar e aplicar conhecimentos previamente adquiridos e desenvolver diversas competências. Mas se as aprendizagens de base não forem feitas, o “trabalho” torna-se uma tarefa puramente mecânica. Que com a orientação do professor ou a ajuda de outros adultos, até pode sair bem feita. Mas será que de facto se aprendeu alguma coisa? Com o brutal investimento de tempo e energias despendido no ensino remoto, e o seu incorrigível optimismo, muitos professores gostam de acreditar que sim.  Mas são os próprios alunos que, tantas vezes, nos fazem cair na dura realidade…
  • Mais decisiva ainda serão as respostas de um futuro próximo…a capacidade de as escolas oferecerem, neste objetivo de recuperação, respostas diferenciadas e personalizadas. A realidade é muito diferente de agrupamento para agrupamento e, dentro de uma mesma escola, de aluno para aluno. O impacto desigual que o ensino à distância teve só poderá ser atenuado com o reforço de tutorias e outros mecanismos de apoio. Ou seja, com mais professores e técnicos especializados no terreno. É de pessoas, uma vez mais, que precisamos para recuperar o tempo perdido.

 

 

           Tal como dizia John Dewey,

 

“A educação não é uma preparação para a vida, é a própria vida”.

 

 

 

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2 Comentários
  • vitorino
    Julho 2, 2020

    Concordo perfeitamente. A primeira condição de uma boa aprendizagem é a afetividade, a empatia, o sr capaz de ‘calçar os sapatos’ de cada um dos nossos alunos. E isso, exige olhos nos olhos, exige presença. O e-learning podendo ser útil não tem nem de perto nem de longe as potencialidades do presencial… Somos seres sociais e o nosso cérebro social é fundamental nas aprendizagens. Que o diga Vygotsky…
    Quanto aos trabalhos de casa, na maior parte das vezes são uma ‘descarga de consciência’ dos professores. O valor que porventura possam ter (Já admito que possam ter algum…) não compensa o valor do tempo que a criança perde neles e que poderia usufruir a cbrincar, a viver o seu mundo de criança. Estamos a tornar a escola numa ‘prisão dourada’! E os presos, geralmente saiem revoltados das cadeias….
    Bjs
    VC

    • Emília Silva
      Julho 13, 2020

      Boa tarde Vitorino!

      Agradeço os seus comentários reflexivos.

      Abraço.

      Emília Silva

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